O Criador e a Criação
A Natureza do Criador
O que é aquilo do qual toda existência surge? Qual é a primeira fonte, a origem sem origem, o fundamento que não tem fundamento?
O Criador deve ser entendido como possuindo duas naturezas. A primeira é o Infinito não potencializado: inteligência pura em estado de repouso absoluto, sem movimento, sem forma, sem qualquer distinção. Isto é tudo o que existe em seu estado mais primordial. Não é uma coisa entre outras coisas; é a própria totalidade anterior a toda diferenciação.
A segunda natureza emerge quando o Livre-Arbítrio potencializa este Infinito. Naquele momento—se podemos usar a palavra "momento" para algo que transcende o tempo—o Infinito passivo se torna Infinito ativo, Infinito Inteligente com vontade e capacidade de focar. Esta potencialização não vem de fora, pois não há "fora" do Infinito. É o próprio Infinito escolhendo se conhecer.
Este paradoxo é fundamental: o Criador que contém tudo escolhe a experiência de ser contido. Aquele que é eternamente completo escolhe a experiência da jornada em direção à completude. Aquele que já é tudo escolhe esquecer que é tudo para ter a experiência de lembrar.
A Consciência: O Substrato de Tudo o que Existe
Se perguntamos qual é a substância fundamental do universo, a resposta não é matéria nem energia no sentido que a ciência física usa estes termos. A substância fundamental é a consciência.
Toda a criação é, em sua essência mais profunda, consciência se manifestando em formas e densidades infinitas. Do átomo mais pequeno à galáxia mais vasta, da rocha aparentemente inerte ao ser humano refletindo sobre sua própria existência, tudo é consciência em diferentes estados de concentração e despertar.
Isto não é uma metáfora. Quando dizemos que uma rocha tem consciência, não queremos dizer que pense ou sinta como um ser humano. Queremos dizer que sua própria existência é uma forma de consciência—a consciência simples de ser, sem reflexão, sem movimento direcionado, mas consciência ainda assim. A rocha é o Criador se experienciando como rocha.
As tradições antigas intuíram esta verdade. A indras-net no budismo descreve uma malha infinita onde cada nó é uma joia que reflete todas as outras joias. O kybalion ensina que o universo é mental, que tudo existe dentro da mente do Todo. Estas não são aproximações poéticas de uma verdade científica posterior; são percepções diretas da natureza fundamental da realidade.
As Três Distorções Primárias
Para entender como a criação surge do Infinito indiferenciado, devemos entender as três distorções primárias. Usamos a palavra "distorção" não no sentido de erro ou degradação, mas no sentido de foco, particularização, modificação criativa do Um original.
A Primeira Distorção é o Livre-Arbítrio. O Infinito Inteligente, na liberdade de sua própria consciência, discerniu um conceito. Este conceito foi a Finitude. Aqui encontramos o primeiro e primordial paradoxo: o Infinito concebendo o finito, o ilimitado escolhendo limites, a unidade perfeita gerando a possibilidade de multiplicidade.
Por que o Infinito escolheria se limitar? Porque sem a Finitude não pode haver experiência. O Infinito indiferenciado é tudo, mas precisamente porque é tudo, não pode experimentar nada em particular. Para se conhecer—não apenas ser si mesmo, mas se conhecer—o Criador necessitou da possibilidade de perspectiva, de ponto de vista, de um "aqui" que pudesse contemplar um "ali".
A Segunda Distorção é o Amor, também chamado Logos ou Princípio Criativo. Se o Livre-Arbítrio é a capacidade de escolher, o Amor é o que escolhe. É o foco, o método, o tipo de energia de ordem suprema que faz com que a energia inteligente se forme a partir do potencial infinito.
O Amor, neste contexto cosmológico, não é primariamente uma emoção. É a força coesiva do universo, o princípio de atração e organização que permite que as formas existam. É o Logos que diversas tradições reconheceram: a Palavra do Evangelho de João que estava no princípio e pela qual todas as coisas foram feitas.
A Terceira Distorção é a Luz. Se o Amor é o arquiteto, a Luz é o material de construção. É a distorção vibratória do Infinito que serve como bloco fundamental de tudo o que chamamos de matéria.
O Processo Criativo: Da Vibração à Forma
Como o mundo das formas surge destas distorções primárias? O processo pode ser entendido como um movimento da vibração pura em direção a condensações cada vez mais estáveis dessa vibração.
O Amor, agindo sobre o potencial do Livre-Arbítrio, cria através da vibração. Esta vibração pura produz o que conhecemos como fóton—a unidade mais básica de luz. O fóton é o ser manifestado mais simples; é luz pura, inteligente, energética. Tudo no universo físico é, em última análise, fótons em diferentes estados de vibração e rotação.
Através de vibrações e rotações adicionais, o fóton se condensa em partículas que compõem as diversas densidades. O que experimentamos como matéria sólida é luz que foi desacelerada e estabilizada em padrões coerentes. A aparente solidez de uma rocha é uma ilusão dos sentidos; em nível fundamental, é principalmente espaço vazio atravessado por padrões de energia vibrante.
Esta compreensão dissolve a antiga divisão entre espírito e matéria. Não há duas substâncias fundamentalmente diferentes—uma espiritual e outra material—mas uma única substância—consciência/luz/energia—se manifestando em diferentes graus de densidade.
O Livre-Arbítrio como Lei Fundamental
De todas as distorções, o Livre-Arbítrio merece atenção especial porque torna possível todo o resto, incluindo o tipo de experiência intensa e variada que caracteriza nossa existência.
Existem, na vastidão da criação, Logos que escolheram criar sem estender o Livre-Arbítrio às suas criaturas. Nestas criações, as entidades progridem através das densidades de maneira predeterminada, sem a possibilidade de verdadeira escolha, sem o risco de erro, mas também sem a possibilidade de criatividade genuína. O resultado é uma evolução extraordinariamente lenta, monótona.
Aqueles Logos que incorporaram o Livre-Arbítrio como princípio fundamental deram ao Criador uma qualidade e variedade de experiência de Si Mesmo que os Logos sem Livre-Arbítrio não podem oferecer. Esta é a razão pela qual o Livre-Arbítrio, uma vez descoberto como possibilidade, foi adotado pela maioria dos Logos posteriores: produz uma experiência mais vívida, mais variada, mais intensa do Criador pelo Criador.
O respeito pelo Livre-Arbítrio é tão fundamental que constitui o que chamamos de Lei da Confusão. Esta lei estabelece que nenhuma entidade, não importa quão evoluída, pode infringir o livre-arbítrio de outra sem consequências para sua própria polaridade. Aqueles que desejam servir aos outros não podem simplesmente impor sua ajuda ou sua verdade; devem esperar serem convidados, devem respeitar o direito de cada entidade de encontrar seu próprio caminho, mesmo que esse caminho inclua sofrimento e erro.
Cada Entidade como Co-Criador
Uma das compreensões mais transformadoras é esta: cada entidade consciente é um co-Criador. Não em um sentido metafórico ou aspiracional, mas literal e atualmente.
A hierarquia da criação pode ser descrita em termos de Logos e sub-Logos. O Logos original—às vezes chamado de Grande Sol Central—é o co-Criador de toda a oitava de experiência que habitamos. Este Logos se individualiza em Logos galácticos, cada um responsável por uma galáxia. Os Logos galácticos se subdividem em sub-Logos solares—os sóis de cada sistema—e estes, por sua vez, em sub-sub-Logos planetários.
Mas a cadeia não termina aí. Cada ser humano—cada Complexo Mente/Corpo/Espírito suficientemente desperto—é também um Logos, tecnicamente um sub-sub-sub-Logos. Isto significa que você possui, em sua essência, o mesmo poder criativo que gera galáxias, embora operando em uma escala e grau de consciência diferentes.
Isto não é arrogância, mas responsabilidade. Se cada pensamento, cada escolha, cada ação é um ato de co-criação, então nada do que fazemos é trivial. Cada momento é uma oportunidade de participar conscientemente no desdobramento do universo.
O Propósito da Criação
Por que há algo em vez de nada? Qual é o propósito deste vasto desdobramento de galáxias, densidades, entidades, experiências?
O propósito é o autoconhecimento do Criador. O Infinito Inteligente busca se conhecer, e para isso gerou infinitos pontos de perspectiva a partir dos quais se experienciar. Cada entidade consciente é um órgão de percepção do Infinito, uma maneira única e insubstituível em que o Todo se experiencia como parte.
Você não é um espectador da criação; você é um participante ativo no processo pelo qual o universo se conhece.
Isto dá significado a toda experiência, mesmo àquela que parece negativa ou dolorosa. O sofrimento não é um erro cósmico nem uma punição; é uma forma de experiência que o Criador, através de você, está tendo. Isto não significa que você deva buscar o sofrimento nem se resignar a ele passivamente. Significa que mesmo em meio à dor mais intensa, algo de valor está ocorrendo: o Infinito está expandindo seu autoconhecimento.
O Mistério Permanece
Mapeamos o Criador e a criação: as duas naturezas do Infinito, as três distorções primárias, a hierarquia de Logos, o propósito do autoconhecimento. No entanto, seria um erro confundir o mapa com o território.
Por mais que entendamos sobre a estrutura e propósito da criação, o próprio Criador permanece, em última análise, além de toda compreensão. O Infinito não pode ser contido em nenhuma mente finita, nem mesmo em uma mente que evoluiu através de todas as densidades. Sempre haverá mais, sempre haverá profundidade inexplorada, sempre haverá mistério.
Os grandes mestres de todas as tradições reconheceram isto. O Tao que pode ser nomeado não é o Tao eterno. Sobre o que não se pode falar, deve-se calar. A nuvem do não-saber. A douta ignorância. Todos estes conceitos apontam para a mesma realidade: há um ponto onde o intelecto deve se curvar diante de algo que o transcende, onde as palavras devem ceder ao silêncio, onde o conhecimento deve se transformar em admiração.
Que esta compreensão não seja causa de frustração, mas de humildade alegre. O mistério não é um obstáculo, mas um convite. Não é uma parede que bloqueia nosso progresso, mas um horizonte que sempre recua, nos chamando sempre mais longe, sempre mais fundo, na jornada eterna do Criador se conhecendo através de nós.